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Passado e presente se encontram nas ruas e avenidas de Cuiabá

Com a ajuda do professor Aníbal Alencastro, é possível conhecer algumas curiosidades que deram à malha urbana de Cuiabá um rico arcabouço histórico, cheio de causos e mistérios.
Protásio de Morais | Secom/MT

As belas ilustrações são do arquiteto Moacyr Freitas e integram o arcabouço do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso - Foto por: IHGMT e Marcos Vergueiro | Secom MT
As belas ilustrações são do arquiteto Moacyr Freitas e integram o arcabouço do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso
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Festiva, Cuiabá não é mais nenhuma menina. Às vésperas de completar 300 anos de história, a acolhedora Cidade Verde carrega características de uma metrópole complexa, hoje com mais de 600 mil habitantes. A 20ª capital mais populosa do país, ocupa a 92ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). 

Suas ruas e avenidas movimentadas apresentam sintomas de uma capital do século 21, com trânsito carregado e abstruso. Mas nem sempre foi assim. A pacata Cuiabá Colonial era muito mais simples, claro, a julgar pelas suas poucas ruas onde trafegavam pedestres, cavalos e carroças. Com o tempo, as ruas foram modernizadas e ganharam novos nomes, mas mantiveram suas histórias graças a importantes guardiões da memória.

Mas será que você saberia dizer quais são os nomes originais de algumas das principais vias de nosso Centro Histórico? E quais histórias fantásticas elas carregam? Com a ajuda do professor Aníbal Alencastro, garimpamos algumas curiosidades que deram a nossa malha urbana um rico arcabouço histórico, repleto de causos e mistérios.

Rua de Cima

Provavelmente você já passou por lá. A famosa Rua de Cima, da Cuiabá Colonial, abrigava as melhores casas da província. Talvez por ostentar o privilégio de situar-se no ponto mais alto, em relação as outras ruas da época, lá foram construídas casas e sobrados imponentes, assumindo assim sua panca aristocrata, trocando o nome para Rua Augusta.

Mas também já foi chamada de Rua das Trepadeira, por causa das plantas ornamentais que enfeitavam muitas residências da época e, mais tarde, Rua Onze de Julho, em alusão ao Combate do Alegre, de 1867.

É de lá o registo do mais importante evento cívico da “Cuiabá de antigamente”, a instalação da Assembleia Legislativa Provincial, no velho Casarão da Rua Augusta, esquina com a travessa da Assembleia, hoje Rua Campo Grande. Já sabe de qual rua estamos falando?

Mais uma dica. Foi lá que em 28 de agosto de 1835, o presidente da província, coronel Antônio Pedro de Alencastro enviou à Assembleia o Decreto de Lei n°16, mudando definitivamente a capital de Vila Bela da Santíssima Trindade para Cuiabá.  “Hoje, a antiga Rua de Cima é conhecida como Rua Pedro Celestino, em reverência ao ilustre farmacêutico que governou o Estado de Mato Grosso entre 1908 e 1922”, o professor Aníbal.

Rua de Baixo

Rua Galdino Pimentel (Rua de Baixo), gravura de Moacyr Freitas

Na primeira descrição do sítio urbano de Cuiabá, lá em 1723, já constava a Rua de Baixo, originalmente chamada de Rua do Oratório por causa das rezas e orações comuns naquele lugar. Não por acaso, mais tarde, lá foi erguida a Igreja do Senhor dos Passo. Mas nada é tão simples quanto parece.

Foi na Rua de Baixo que surgiram os mais intrigantes causos da província. Aníbal Alencastro conta que, certa vez, um português de nome José Manuel, faleceu de causas naturais e, logo após o velório, voltou dos mortos, como um milagre. “Na verdade, José Manuel sofria de uma estranha doença, catalepsia, que o deixava inerte como morto, após uma crise. O que se conta é que o homem conseguiu acordar e sair da sepultura, logo após seu funeral. Isso causou pânico e terror em todos os moradores, que desconheciam a doença”.

E foi por conta desse “milagre” que o português que voltou do mundo dos mortos mandou edificar, às suas próprias custas, no mesmo local do oratório da Rua de Baixo, a Igreja do Senhor dos Passos.

Igreja essa que guarda muitos mistérios. Foi lá, no século 19, que surgiu a lenda do Totó Onça, um ermitão que se isolou na torre da igreja porque carregava uma deficiência física nas costas. Essa história lhe é familiar?

“Totó Onça permanecia quase todo o tempo na torre da igreja, junto aos sinos, os quais ele comandava no momento das horas. Um curioso fato que tinha uma certa semelhança com o famoso romance de Victor Hugo, ‘O Corcunda de Notre Dame’, lembrando a figura do personagem ‘Quasimodo’”, conta.

Hoje, a antiga Rua de Baixo é uma das mais tradicionais da capital. Ela é composta por dois trechos importantes, Rua Galdino Pimentel e Rua Sete de Setembro. Vale ressaltar que Galdino Pimentel foi presidente da província mato-grossense, em 1885 e Sete de Setembro, em referência a independência do Brasil.

Rua do Meio

Os fundos da Rua de Cima e os fundos da Rua de Baixo deram origem a Rua do Meio. Isso porque a união dos quintais dos dois principais caminhos da Cuiabá Colonial, serviam de passarela para os negros escravos, proibidos de entrar pela porta da frente.

Eram os escravos os encarregados de levar água das bicas ou do córrego da Prainha para as casas dos senhorios, cujo acesso era pelos fundos, criando assim uma passagem natural entre as duas ruas maiores. Surgiu então a Rua do Meio, uma estreita ruela, também conhecida à época como Rua das Pretas.

Com início no Largo da Matriz, prolongando-se até o Largo da Mandioca, a Rua do Meio, ou das Pretas, hoje é conhecida como Rua Ricardo Franco. Entretanto, nos dias atuais, ainda há quem a chame pelo seu nome original, Rua do Meio.

E foi na Rua do Meio, ou melhor, na Ricardo Franco que nos anos 1950, se instalaram por lá personalidades da cuiabania. “Lá viviam Mário Vieira e seu jornal falado Bandeirantes no Ar, da Rádio Clube Voz D’ Oeste; o inesquecível Foto Chau; Lúcio dentista, pai de Ivo de Almeida, o eterno locutor esportivo das rádios cuiabana; e o memorável Álvaro alfaiate”, recorda Aníbal.

Ah, o nome da Rua Ricardo Franco é uma justa homenagem a um destemido engenheiro militar português que aqui chegou em 1780 para trabalhar na demarcação dos limites entre as fronteiras do Brasil português e a parte espanhola. "Ricardo Franco casou-se com uma índia e nunca mais voltou a sua terra natal", conta.   

Rua Bela do Juiz

Rua Bela do Juiz, gravura de Moacyr Freitas

De tempos em tempos, a Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá era visitada por um juiz de fora que vinha de outro condado para julgar casos de homicídio e conflitos sociais. Como autoridade máxima da justiça luso-brasileira, o magistrado hospedava-se na melhor casa daquela ruela, que à época, não tinha um nome definido. Alguns a chamavam de “caminho para o Porto” e outros de “Cruz das Almas”.

Durante uma dessas visitas ao vilarejo, o juiz acabou se apaixonando por uma linda cuiabana, residente na mesma rua em que se hospedara. Acontece que a moça já tinha um pretendente, aí o estrago foi grande. Em resumo, a história virou um escândalo e toda a vila ficou sabendo. O juiz, envergonhado, partiu para nunca mais voltar e a moça ficou conhecida como a bela do juiz. Daí saiu o nome da rua, que nos tempos atuais é conhecida como Treze de Junho, situada no centro antigo de Cuiabá.

A Rua Treze de Junho, que nasce na Praça da República e vai até o bairro do Porto, nas proximidades do Rio Cuiabá, é uma bela homenagem a data que comemora a retomada de Corumbá, em 1867, na época do Mato Grosso Uno, pelo então Coronel Antônio Maria Coelho.

“Até os anos 1960, foi o principal acesso entre a cidade e o porto, antes do aparecimento da Avenida Coronel Duarte. Foi lá que surgiu a primeira linha de bondinhos, em 1891, instalado pela Companhia Progresso, considerado o primeiro transporte coletivo de Cuiabá ”, explica o professor Aníbal.